terça-feira, 24 de abril de 2018

O mundo físico está morto, viva o mundo virtual.

 A minha mente perde-se para o ponto onde não existe tempo nem espaço. 
É um estar em todo o lado e não estar em lado nenhum. 
A distração é a dominante e a concentração a dominada num jogo de latência entre o “trabalha” e o “não me apetece”. 
O backlog acumula-se já não no canto da secretária, mas no textmate do portátil. 
Mudam os tempos, mas as vontades primitivas permanecem: a máscara é o pacto social mas a verdade é que a reação a determinados estímulos é homogénea. O que impacta o ser humano continuará sempre a ser aquilo que lhe provoca reações químicas. Quando os dedos deslizam pelas teclas no vício do mais, o que os olhos captam faz o corpo entrar em convulsão. 
Emoções. 
Aquilo que romanticamente dizemos que nos faz humanos e que legitima o ódio e o amor. A educação e na sociedade definem a amplitude das nossas emoções: anos e anos de constrangimentos que pautam o nosso limite de amar e odiar. 
A amplitude serve também como medida entre quão perto deixamos o certo ser o errado. Depois há os desvios: quando surge um ser que desafia as leis da natureza e te força a passares os teus limites e aprender novas emoções que já não têm espaço no espectro entre o certo e o errado.
Quando a tecnologia permite que um olhar, a maciez, um som sejam quase reais, gravados no tempo e vistos e revistos vezes sem conta, as emoções acumulam e preenchem o espaço que sobra na luta entre o certo e errado. 
É errado, mas não é real.  Não passando a ser certo, passa a ser menos errado. 
A letargia e abstinência de qualquer produtividade foi a constante num dia passado a re-reagir às tuas reações às minhas ações, e dentro de mim a barreira entre o mundo virtual e físico a querer desaparecer. 
Não sei o que sobraria de ti se estivesses por perto. 



Limbo



Que se criem todas as barreiras entre o certo e o errado: quando dois pares de olhos se batem de frente a barreira move-se. 
De repente o tempo e o espaço moldam-se outra vez. Um buraco negro que inverte a perspetiva sobre todas as coisas. 
Tudo o que é primitivo reage como uma orquestra: um cheiro que ultrapassa o nariz e que entra por mim adentro; as unhas a cravarem-se na carne da palma da mão; os meus olhos na eminência da reviravolta; os joelhos a apertarem-se e o calor a crescer no meio das coxas... 
Uma descontração forçada e o cansaço a acentuar-se: gerar resistência é mais difícil do que contrariá-la. Senti a minha língua humedecer os lábios vezes sem conta num reflexo incondicionado preparatório à queda de todos os princípios. 
O gelo da noite forçou-nos ao movimento que se avizinhava perigoso demais. Antecipei uma relativização do certo e errado enquanto a distância física se encurtava e as vozes iam descendo para um volume de intimidade.  O animal selvagem dentro de mim procurava sinais numa tentativa desconfortável de tentar olhar-te nos olhos pelo canto do olho. A confusão fez-me decidir que a caixa de pandora estaria melhor fechada. 
O tempo não teve tempo suficiente. 
Entre o certo e o errado, o limbo permaneceu. 

domingo, 4 de dezembro de 2016

Senhor dos meus sentimentos

Voltei mais cedo a Lisboa. Voltei por ti. 
Tirei do armário o vestido novo e da caixa os sapatos pretos de verniz também por estrear. Enchi-me de dedicação e maquilhei-me com esmero. 
Ver-te é sempre uma emoção... olhar nos teus olhos profundamente castanhos e sentir a esperança que vejo neles alimenta-me a alma.
A luz mortiça do candeeiro na carruagem ficava-te tão bem... 
Volto a casa depois de horas que pareceram minutos e sinto o coração a querer saltar pela boca. 
Escrevo e continuo a senti-lo a palpitar fortemente no meu peito como se não houvesse amanhã. 
Guardo em mim um sentimento de paz enquanto as minhas mãos deslizam criando palavras ao som de Yiruma. 
Que sentimento tão maravilhoso... Fazes-me sentir tão viva. Fazes-me sentir tão bem. 
Sinto no peito a tua presença esta noite... Tudo o que preciso tu me deste. 
Faltou-me o toque da tua mão na minha mas imaginei-o toda a noite enquanto saltitávamos entre conversas e eu reparava nos marcas de quem também rói os dedos. 
Abri-me mais um pouco. Procurei ler-te as entrelinhas. 
Eu sei que perguntei, mas não precisava. 
Sei as tuas qualidades. Consigo fazer um pitch de ti até ao amanhecer... faço-o todos os dias quando conto que me encantas sem qualquer motivo racional, sem que eu te consiga encaixar em matriz alguma, sem que consiga explicar porque é que sinto o que sinto. 
Como podes sequer achar que eu iria ter coragem de te enfrentar a arriscar acabar com as emoções que me são mais queridas? Consegues sequer imaginar quão rejuvenescedor é sentir após tanto tempo de momentos vãos? 
Admiro-te... de todas as maneiras. 
Os teus valores, a tua inteligência, o teu sorriso... mesmo não sendo igual ao das fotografias que tirei antes de hoje te encontrar.   
Falavas, e enquanto as palavras saíam eu memorizava cada traço dos teus lábios, cada curva do teu rosto. Olhava o teu pescoço e desejava afogar-me nele. Tenho agora na memória o tom e a textura da tua pele. 
Deliciei-me com a imagem do teu tronco, os teus braços e até a desorganização dos teus dentes. Memorizei-te. Quero-te trazer para os meus sonhos quando na verdade és muito mais que um ser físico aos meus olhos e te tornaste numa presença etérea na minha vida. 
Foi difícil controlar todas as emoções que me iam no peito mas nada é fácil contigo... Se fosse não me serias tão importante. 
Vou continuar a aguardar que me desafies porque não te vou impor a minha presença: uma das coisas mais belas e inéditas deste sentimento é a tranquilidade e a voluntariedade em esperar... sim, vou continuar a aguardar e dar-te o tempo que queiras ou não consumir. É da minha natureza uma antítese, mas sinto-me feliz só por estar presente. 
Sei que se te contasse que és tu quem eu mais quero... que abro as tuas fotos várias vezes durante a semana só para ver esses olhos que me entram na alma... sei que se te contasse me fugirias entre os dedos. 
Disseste que não falei da pessoa que mais me fascina e que me arrebata a alma mas dei-te todas as pistas desde o início: na tua capacidade inabalável de ler pessoas não conseguiste ler-me. 
Não sabes, mas foste tu quem travou todos os outros. E em breve chegará o dia em que me poderás olhar na confiança da minha capacidade de estar sozinha e assim ser feliz. 
Não te quero ver meter duas e três barreiras entre nós... uma é suficiente. 
Queria poder ter a oportunidade de te abraçar e refugiar-me nos teus braços. Não, não porque precise mas porque é neles que a minha alma se sente quando estou contigo. 
Sei que é impossível mas na impossibilidade do toque guardo o calor que, como uma fogueira, me aquece o coração. 
Dizes que o que mais anseias é sentir... e por isso sei que nada sentes por mim. 
Mas... importando não importa. 
Não te vou dar a hipótese de me recusares. 
Sim, somos adultos. Sim, devemos falar. Não, não o irei fazer. 
O que vai cá dentro é demasiado precioso para desaparecer na amargura de uma rejeição. 
Afinal, deste-me a inspiração para voltar a escrever. 
Vou deixar o tempo passar e aproveitar cada dádiva tua. 
Que sejas o alimento das minhas palavras, que sejas o senhor dos meus sentimentos.

domingo, 27 de novembro de 2016

Potencial

Tens potencial de criar estragos em mim.
De me deixares perdida, de me fazeres sentir consumida por emoções tão violentas quanto pacificadoras.
Tens em ti a sapiência que me excita e na personalidade o equilíbrio a mascarar feridas antigas e profundas. Tens medos e receios que, admitindo, te fazem humano. 
A sensibilidade nas pequenas coisas e a força nas grandes. A ambição e a determinação são das mais fascinantes que conheço.
Olho para o tipo de aparência que me fascina... imagino-te no abstracto dos meus lábios e dos meus braços. 
Vejo em ti a paz que preciso nas horas calmas. Adivinho aquele copo de vinho, o piano a tocar no fundo e a tranquilidade com que sempre sonhei a invadirem o meu mundo. 
Tens potencial de me levar à desgraça... 
Perder-me em ti por quanto as nossas conversas não têm fim enquanto as horas têm. 
Fecho os olhos e sorrio com a envolvência de um charme num trono de espadas. 
Felino, ousas disputar a minha posição. Consistente, desarmas-me constantemente. 
No peito o coração dispara de irritação e bloqueio mas o sentimento que permanece é rejuvenescedor. 
Há algo que parecem segredos a circular no nosso espaço: contei-te coisas escondidas. Percebeste o que ninguém tinha percebido. 
Sim, somos demasiado parecidos. Sim, gostamos demasiado de nós próprios.
Não quero ver-te mais... quero passar mais tempo contigo. 
Quero aqueles momentos raros e fugazes em que entro em modo de controlo descontrolo: quero agarrar-te, apertar-te em mim e deixar que tu e eu nos afundemos no paraíso. 
Fico tola, pareço mentalmente diminuída... e o pior é divertir-me com isso.
Sinto-me a cegar. Mas vale-me a distância constante para que os meus olhos não se fechem: continuo a ver-me ao espelho e sei que não chego. 
Tens potencial para me arrebatar a alma mas continuarei a resistir a que o faças. 

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Episódios de um coração em coma

Episódio 1

Feita de ferro.
Coração numa sala de hospital em coma.
Cérebro como guardião armado até aos dentes.
Desafiado pela honestidade e pela tua crueldade o cérebro desembainhou as espadas e entrou em estado de alerta máximo. Mandou chamar a memória e todo o departamento de emotional analytics. Armou-se uma barreira com todos os sentimentos protectores a darem o corpo ao manifesto.
O coração, fechado no seu quarto e paralisado começou a estremecer.
O cérebro entra em pânico: "Que está a acontecer? Chamem os médicos!"
E todo o departamento racional vem a correr em direção a ele e depois de muito examinar determina:
"Os sinais não são conclusivos e não sabemos que possa estar a acontecer... Provavelmente começou apenas a sonhar..."
O cérebro desconfiou... Armou-se ainda mais e foi criando pequenos soldados chamados lógica.
Todos quietos. Todos em espera.
Cá dentro o cérebro não sabe o que fazer e o coração começa a ter... espasmos?
"Que está a acontecer?" Grita o cérebro em confusão absoluta. À sua volta inicia-se uma amnésia colectiva no corpo de soldados e começa a confusão com todos a esbarrarem uns nos outros e a colidirem contra as paredes.
"Parem! Que estão a fazer? Que vírus apanharam vocês? Estão todos malucos?"
O cérebro foge e fecha-se com o coração dentro do quarto.
Vê que tenuamente e ainda de olhos fechados o coração parece ter começado a respirar...
"Será?"

sábado, 12 de novembro de 2016

Partner in crime

Há uma semelhança. Há tudo por construir.
Nos dedos que deslizam pelas teclas, no filme que passa na televisão e do qual desconheço o nome, na absorção de um mundo que facilmente se tornou só nosso. 
Tomaste-me o tempo e ganhaste cada minuto com o anterior... 
Ficou em mim uma sensação de insaciabilidade inexplicável enquanto despoletas em mim uma curiosidade desconhecida. 
Percebes-me. Aguentas-me. Toleras-me. 
Não me mandas embora quando te magoo para saber como reages. 
Passas cada desafio, cada teste com excelência. 
Consegues exigir de mim mais que o normal e adoro cada momento em que me fazes sorrir. É demasiado fácil falar contigo...
A minha ambição parece ter encontrado par e a garra um aliado. Somos feitos da mesma matéria, daquela que tudo aguenta e nunca se satisfaz.. tornar-te-às facilmente my "partner in crime". 
Perturba-me a tua existência e a incógnita que toda esta história nos traz... Anseio o momento de ver que existes mas temo profundamente perder o quase nada que possuímos. 
Tenho medo de te encontrar e perceber que te encontrei.


quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Palavra


(Banda sonora)

Queria poder ouvir a tua voz no meu ouvido... 
Essa voz profunda e que me causa arrepios. 
Não entendo a tua matéria prima. 
Não compreendo os sentimentos que me assolam.
Juro não cair aos teus pés mas cairia de bom grado... 
A minha palavra perde o valor quando o que quero e o que digo não se articulam.
São pequenos momentos controlados sem consequência mas uma vontade inédita de te ter em jogo... quero-te... mas este espaço que existe entre mim e ti é ainda mais apaixonante. O elástico que te afasta e te puxa é algo de maravilhoso. 
A minha estupidez é constante e perto de ti sinto-me tola... básica. Uma incapacidade permanente de te seduzir usando o meu maior trunfo. 
És uma espécie que desconheço, que me desarma, que me desnuda, que puxa pela minha existência mais pura, mais genuína. 
Olho o meu quadro branco todos os dias e inunda-me o riso que contigo é uma constante. Adoro as pequenas rugas que se formam no canto dos meus lábios quando sou simplesmente eu nos parcos momentos que partilhamos.  
Sinto uma curiosidade imensa no que és e uma necessidade de conhecer cada recanto da tua mente desconstruindo-te. Almejo o teu pouco tempo porque no nosso metro quadrado há uma mistura de paz e excitação onde me apercebo que há demasiadas coisas que quero fazer contigo. 
Mas deixo-me quedar... a proximidade ao sonho é demasiada.