sábado, 3 de novembro de 2018

O mundo real está morto, viva o mundo digital

O mundo físico está morto, viva o mundo virtual.
A minha mente perde-se para o ponto onde não existe tempo nem espaço.
É um estar em todo o lado e não estar em lado nenhum.
A distração é a dominante e a concentração a dominada num jogo de latência entre o “trabalha” e o “não me apetece”.
O backlog acumula-se já não no canto da secretária, mas no textmate do portátil.
Mudam os tempos, mas as vontades primitivas permanecem: a máscara é o pacto social mas a verdade é que a reação a determinados estímulos é homogénea. O que impacta o ser humano continuará sempre a ser aquilo que lhe provoca reações químicas. Quando os dedos deslizam pelas teclas no vício do mais, o que os olhos captam faz o corpo entrar em convulsão.
Emoções.
Aquilo que romanticamente dizemos que nos faz humanos e que legitima o ódio e o amor. A educação e a sociedade definem a amplitude das nossas emoções: anos e anos de constrangimentos que pautam o nosso limite de amar e odiar.
A amplitude serve também como medida entre quão perto deixamos o certo ser o errado. Depois existem os desvios: quando surge um ser que desafia as leis da natureza e te força a passares os teus limites e aprender novas emoções que já não têm espaço no espectro entre o certo e o errado.
Quando a tecnologia permite que um olhar, a maciez, um som sejam quase reais, gravados no tempo e vistos e revistos vezes sem conta, as emoções acumulam e preenchem o espaço que sobra na luta entre o certo e errado.
É errado, mas não é real. Não passando a ser certo, passa a ser menos errado.
A letargia e abstinência de qualquer produtividade foi a constante num dia passado a re-reagir às tuas reações às minhas ações, e dentro de mim a barreira entre o mundo virtual e físico a querer desaparecer.
Não sei o que sobraria de ti se estivesses por perto.









Je ne sais quoi

Na tua presença tridimensional soltou-se dos meus lábios um "oh meu Deus".
Olhei-te, e todos os pontos da lista fizeram check.
"Quero-te", decidi no momento em que te levantavas da mesa para me cumprimentar pela primeira vez.
Senti o teu cheiro fazer-me vacilar enquanto uma consternação fingida me trazia de volta ao controlo.
Eu sabia. Nem senti o sabor da comida.
Queria ficar. Tinha que partir.
Já na tua ausência os níveis de distração tornaram-se incomportáveis... difícil ser produtiva quando um jogo está a meio.
"Damn it" e por mais de ti enfrento o pavor de conduzir pelas ruas estreitas de calçada.
Pelo caminho imaginei-nos sentados nos sofás e o jogo a passar ao nível físico facilitado pela proximidade de dois corpos lado a lado.
Mas o teu posicionamente no espaço levou-te a uma mesa de esplanada com um metro entre nós.
Debaixo da mesa sentia as pernas a tremer e o peito acelerar cada vez que te olhava nos olhos.
Muito do que disseste não ouvi... estava muito além daquele momento perdida numa realidade paralela e imaginária...
... sentia as tuas mãos a tocarem-me. Sentia-te tremer da adrenalina e a sossegares perdido no nosso beijo que se tornava mais intenso a cada segundo que passava. Senti os teus dedos a tocarem o meu pescoço e descerem pelas minhas costas... senti-te a pressionar carne contra carne numa fome que de fisiológica se torna inexplicavelmente carnal. 
Sinto os teus olhos a desviarem-se dos meus enquanto falamos... não aguentas a intensidade do meu olhar... e quando desvias a cabeça para não olhar...
... vejo o teu pescoço ficar à minha mercê e muito lentamente pouso os meus lábios nele. Um arrepio percorre-te a espinha numa alucinação anunciada. 
De Baudelaire a Tolkien, de neuroprogramação a declamação, em nenhum momento estava suficientemente perto de ti. O desejo era evidente e era mútuo...
... adoro os teus ombros... a estatura que te dão, a perfeição de um nadador. Sinto-me pequenina no meio dos teus braços enquanto as tuas mão exploram as curvas das minhas ancas e cada centímetro de pele se arrepia à tua passagem. 
Num confessionário de fascinação vejo as tuas covinhas a surgir no teu rosto e os teus olhos a brilhar...
... beijas-me o pescoço e desces ao peito que agarras suavemente fazendo o meus mamilos retesarem-se e pedirem pelos teus lábios. Sinto o calor e a humidade da tua boca e o deleite de te perderes num vale de opolência entre os meus seios.
Vejo-te corar quando me ouves a ler e lembro-me desse rubor de uma qualquer foto depois do banho...   
...e numa aceleração de dois seres dominados pelo desejo, o sangue foge do cérebro para matar o desejo e sem qualquer calma o descontrolo traz-te para dentro de mim.
Mordo os lábios a bloquear a imaginação. "Não faças isso..." e nem sabes o que estás a pedir.
Em ti um je ne sais quois que me deixou desconcertada. 

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Ping, pong, ping... bounce failed

Vidrada na luz da lua. 
As palavras fluíram entre nós como o vento de verão faz oscilar as flores e essa languidez fez-me pensar-te.  
As semelhanças eram mais que as diferenças e na minha humanidade senti-te perto. 
A admiração creceu em cada pequenina coisa e curiosamente vi um ser que se destacou da multidão. 
Pensei-te diferente. Entusiasmei-me na diferença. 
Na determinação, dedicação e assertividade reconheci um par.  
Dois seres com sintonias semelhantes.   
No tom, na sapiência, no perfecionismo vi aquela personalidade: aquela que me faz delirar.
Apenas que não estou certa do que vi... provavelmente imaginei.  
Desapontamento. Desilusão. Des... 
A imaginação nunca se assemelha à realidade.
Quando o desvio padrão se torna a média num estalar de dedos, toda a especialidade se perde restando apenas o que se apelida de generalidade. 
E da palavra em que admiravas a primeira parte, foi a segunda que se destacou... tal como para toda a gente. Nem tudo o que é diferente comporta diferença.
Eu sabia que não queria ir por aí... 


terça-feira, 24 de abril de 2018

O mundo físico está morto, viva o mundo virtual.

A minha mente perde-se para o ponto onde não existe tempo nem espaço. 
É um estar em todo o lado e não estar em lado nenhum. 
A distração é a dominante e a concentração a dominada num jogo de latência entre o “trabalha” e o “não me apetece”. 
O backlog acumula-se já não no canto da secretária, mas no textmate do portátil. 
Mudam os tempos, mas as vontades primitivas permanecem: a máscara é o pacto social mas a verdade é que a reação a determinados estímulos é homogénea. O que impacta o ser humano continuará sempre a ser aquilo que lhe provoca reações químicas. Quando os dedos deslizam pelas teclas no vício do mais, o que os olhos captam faz o corpo entrar em convulsão. 
Emoções. 
Aquilo que romanticamente dizemos que nos faz humanos e que legitima o ódio e o amor. A educação e na sociedade definem a amplitude das nossas emoções: anos e anos de constrangimentos que pautam o nosso limite de amar e odiar. 
A amplitude serve também como medida entre quão perto deixamos o certo ser o errado. Depois há os desvios: quando surge um ser que desafia as leis da natureza e te força a passares os teus limites e aprender novas emoções que já não têm espaço no espectro entre o certo e o errado.
Quando a tecnologia permite que um olhar, a maciez, um som sejam quase reais, gravados no tempo e vistos e revistos vezes sem conta, as emoções acumulam e preenchem o espaço que sobra na luta entre o certo e errado. 
É errado, mas não é real.  Não passando a ser certo, passa a ser menos errado. 
A letargia e abstinência de qualquer produtividade foi a constante num dia passado a re-reagir às tuas reações às minhas ações, e dentro de mim a barreira entre o mundo virtual e físico a querer desaparecer. 
Não sei o que sobraria de ti se estivesses por perto. 



Limbo

Que se criem todas as barreiras entre o certo e o errado: quando dois pares de olhos se batem de frente a barreira move-se.
De repente o tempo e o espaço moldam-se outra vez. Um buraco negro que inverte a perspetiva sobre todas as coisas.
Tudo o que é primitivo reage como uma orquestra: um cheiro que ultrapassa o nariz e que entra por mim adentro; as unhas a cravarem-se na carne da palma da mão; os meus olhos na eminência da reviravolta; os joelhos a apertarem-se e o calor a crescer no meio das coxas...
Uma descontração forçada e o cansaço a acentuar-se: gerar resistência é mais difícil do que contrariá-la. Senti a minha língua humedecer os lábios vezes sem conta num reflexo incondicionado preparatório à queda de todos os princípios.
O gelo da noite forçou-nos ao movimento que se avizinhava perigoso demais. Antecipei uma relativização do certo e errado enquanto a distância física se encurtava e as vozes iam descendo para um volume de intimidade. O animal selvagem dentro de mim procurava sinais numa tentativa desconfortável de tentar olhar-te nos olhos pelo canto do olho. A confusão fez-me decidir que a caixa de pandora estaria melhor fechada.
O tempo não teve tempo suficiente.
Entre o certo e o errado, o limbo permaneceu.

domingo, 27 de novembro de 2016

Potencial

Tens potencial de criar estragos em mim.
De me deixares perdida, de me fazeres sentir consumida por emoções tão violentas quanto pacificadoras.
Tens em ti a sapiência que me excita e na personalidade o equilíbrio a mascarar feridas antigas e profundas. Tens medos e receios que, admitindo, te fazem humano. 
A sensibilidade nas pequenas coisas e a força nas grandes. A ambição e a determinação são das mais fascinantes que conheço.
Olho para o tipo de aparência que me fascina... imagino-te no abstracto dos meus lábios e dos meus braços. 
Vejo em ti a paz que preciso nas horas calmas. Adivinho aquele copo de vinho, o piano a tocar no fundo e a tranquilidade com que sempre sonhei a invadirem o meu mundo. 
Tens potencial de me levar à desgraça... 
Perder-me em ti por quanto as nossas conversas não têm fim enquanto as horas têm. 
Fecho os olhos e sorrio com a envolvência de um charme num trono de espadas. 
Felino, ousas disputar a minha posição. Consistente, desarmas-me constantemente. 
No peito o coração dispara de irritação e bloqueio mas o sentimento que permanece é rejuvenescedor. 
Há algo que parecem segredos a circular no nosso espaço: contei-te coisas escondidas. Percebeste o que ninguém tinha percebido. 
Sim, somos demasiado parecidos. Sim, gostamos demasiado de nós próprios.
Não quero ver-te mais... quero passar mais tempo contigo. 
Quero aqueles momentos raros e fugazes em que entro em modo de controlo descontrolo: quero agarrar-te, apertar-te em mim e deixar que tu e eu nos afundemos no paraíso. 
Fico tola, pareço mentalmente diminuída... e o pior é divertir-me com isso.
Sinto-me a cegar. Mas vale-me a distância constante para que os meus olhos não se fechem: continuo a ver-me ao espelho e sei que não chego. 
Tens potencial para me arrebatar a alma mas continuarei a resistir a que o faças. 

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Episódios de um coração em coma

Episódio 1

Feita de ferro.
Coração numa sala de hospital em coma.
Cérebro como guardião armado até aos dentes.
Desafiado pela honestidade e pela tua crueldade o cérebro desembainhou as espadas e entrou em estado de alerta máximo. Mandou chamar a memória e todo o departamento de emotional analytics. Armou-se uma barreira com todos os sentimentos protectores a darem o corpo ao manifesto.
O coração, fechado no seu quarto e paralisado começou a estremecer.
O cérebro entra em pânico: "Que está a acontecer? Chamem os médicos!"
E todo o departamento racional vem a correr em direção a ele e depois de muito examinar determina:
"Os sinais não são conclusivos e não sabemos que possa estar a acontecer... Provavelmente começou apenas a sonhar..."
O cérebro desconfiou... Armou-se ainda mais e foi criando pequenos soldados chamados lógica.
Todos quietos. Todos em espera.
Cá dentro o cérebro não sabe o que fazer e o coração começa a ter... espasmos?
"Que está a acontecer?" Grita o cérebro em confusão absoluta. À sua volta inicia-se uma amnésia colectiva no corpo de soldados e começa a confusão com todos a esbarrarem uns nos outros e a colidirem contra as paredes.
"Parem! Que estão a fazer? Que vírus apanharam vocês? Estão todos malucos?"
O cérebro foge e fecha-se com o coração dentro do quarto.
Vê que tenuamente e ainda de olhos fechados o coração parece ter começado a respirar...
"Será?"