quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Palavra


(Banda sonora)

Queria poder ouvir a tua voz no meu ouvido... 
Essa voz profunda e que me causa arrepios. 
Não entendo a tua matéria prima. 
Não compreendo os sentimentos que me assolam.
Juro não cair aos teus pés mas cairia de bom grado... 
A minha palavra perde o valor quando o que quero e o que digo não se articulam.
São pequenos momentos controlados sem consequência mas uma vontade inédita de te ter em jogo... quero-te... mas este espaço que existe entre mim e ti é ainda mais apaixonante. O elástico que te afasta e te puxa é algo de maravilhoso. 
A minha estupidez é constante e perto de ti sinto-me tola... básica. Uma incapacidade permanente de te seduzir usando o meu maior trunfo. 
És uma espécie que desconheço, que me desarma, que me desnuda, que puxa pela minha existência mais pura, mais genuína. 
Olho o meu quadro branco todos os dias e inunda-me o riso que contigo é uma constante. Adoro as pequenas rugas que se formam no canto dos meus lábios quando sou simplesmente eu nos parcos momentos que partilhamos.  
Sinto uma curiosidade imensa no que és e uma necessidade de conhecer cada recanto da tua mente desconstruindo-te. Almejo o teu pouco tempo porque no nosso metro quadrado há uma mistura de paz e excitação onde me apercebo que há demasiadas coisas que quero fazer contigo. 
Mas deixo-me quedar... a proximidade ao sonho é demasiada. 

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Prova dos 9

Solto o cabelo e ao meu nariz apurado vem o teu cheiro que nele foi raptado.
Olhei-te. Nunca te vi. 
Autista na percepção estudada de leitura de rostos tenho deixado o cérebro adormecido. 
Maquiavélica na busca do prazer deixo os olhos fechados quando o intrincado de sensações me arrebataria a alma.
Pequenos traços de depravação a serem evidenciados por reacções paralelas a conversas perfeitamente banais.
Palavras soltas em conversas saltitantes não retidas numa memória tinta enquanto dois adultos voltam a viver a adolescência. 
Sensações deliciosas sobrevivendo à noite como sendo a única lembrança de longos toques determinados e consistentes num espaço dividido. 
Os meus lábios colados à fina pele do teu pescoço. Um beijo, dois, três. 
A voluptuosidade de um encontro de corpos em desejo... um pouco mais.... um pouco mais... gritam duas bocas sôfregas e eloquentes a  assediarem-me mutuamente. 
Uma noite esquizofrênica a terminar num resultado líquido parcamente calculado. 
Requesita-se a prova dos 9. 

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Devias...

Devias estar aqui comigo... 
Passeávamos à beira mar...
Deixávamos as ondas beijarem os nossos pés descalços.
Dançávamos na areia molhada...
Enrolávamo-nos na serenidade da noite debaixo de uma lua imensa... Na areia que esfria mas se mantém confortável.
Deixavámos que a noite descesse sobre nós e via-te fechar os olhos e deixares-te ir nos meus braços perdido nos meus beijos.
Devias estar aqui a construir memórias que se gravam a ferro e fogo. A conheceres o sentimento do que é viveres um romance que ultrapassa as fronteiras do tempo, as fronteiras do espaço. 
Devias estar aqui... Entregue aos caprichos do corpo e da voluptuosidade. A compreender onde os maiores poetas da história encontraram inspiração. 
Devias estar aqui... E na ausência de espaço e tempo teres o vislumbre de uma paixão tão intensa que trucida a alma de vontade e de desejo. 
Devias estar aqui... E ouvir as ondas que suavemente rebentam e me provocam um arrepio na espinha que devias ser tu a provocar. 
Devias estar aqui... 
Na prisão de um desejo imensurável e violento que faria as tuas mãos não largarem as minhas e os nossos corpos colarem na sofreguidão de uma noite que não quereríamos ver terminada.
Devias...mas não existes.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Unspoken

No doce encanto de um dia que se move serenamente para a noite sossego na paz de uma existência que se encontra com o espelho pela primeira vez. 
Na quietude das palavras que ainda não foram proferidas auguro um abrir do pano e de palco inéditos. 
Sossego. 
Na calma e perseverança de um ser que agora vive constantemente preso num sonho acordado. 
Os sentidos apresentam-se ao serviço impecavelmente eficientes. 
As rugas voltaram a morar no canto dos lábios. 
A urgência de viver instala-se num pequeno coração que volta a bater na jovialidade do seu renascimento. 
Já morri vezes demais. 
O sol desce sobre a minha pele. 
Sinto a carícia do calor e imagino que alguém consegue apreciar este momento com a mesma percepção que eu. 
Tenho uma checklist demasiado grande...demasiado forte. 
Olho à volta e sei que os meus desejos são mito, fantasia, Deus. 
Incógnita na decisão de merecer o que quer que seja, oiço o silêncio a cair com a noite e um olho um copo, que vazio, apresenta apenas vestígios daquilo que foi. 

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Paz

Não fazer nada. 
Tenho licença para estar quieta. 
Sossego e sinto cada pedacinho do meu corpo. 
Tomo consciência do que me rodeia e que o tempo não tem que ser o comboio que estou sempre a tentar apanhar. 
Hoje não vou fazer nada. Hoje vou-me deixar existir sem relógio. Hoje vou extinguir a minha existência na ociosidade. 
Aprender a desligar a máquina e sossegar. Sentir o ar a entrar nos meus pulmões, saborear a comida, sentir o vento a limpar-me a pele.
Deixar-me-ei ler um livro mas daqueles inúteis, em que o cérebro dorme em absoluto. Sentar-me-ei à beira rio a mirar as vagas que passam... nada será relevante. 
Hoje, nada me irá arrancar à paz merecida e há tanto almejada. 

terça-feira, 2 de junho de 2015

Camaleão

Não sabia o que lhe chamar. 
Chamo-lhe coragem.
Coragem por ausência do medo. É isso. 
O medo desapareceu.
Digo às pessoas que cresci. Mas é mentira.
A verdade é que evoluí.
Crescer implica maturidade e quanto a essa deixo-a na discricionariedade. 
Porquê ser adulta quando não preciso. 
Só preciso de convencer os outros de que o sou. 
Convencer os outros... nada mais que isto. Não é o que fazemos todos os dias? 
Obecedecer a pressupostos sociais e esperar que não vejam que existimos.
"É preciso  coragem para vestir um determinado vestido".
É preciso coragem para nos infiltrarmos na multidão e os fazermos acreditar que somos um deles. 
É preciso coragem  para nos ambientarmos, adaptarmos, camuflarmos e minarmos os ecossistemas a partir dos neurónios. 
Enalteço-me com a brincadeira que é estar num mundo cinzento e só com infra-vermelhos ser perceptível o cintilar da minha existência. 

Eu não cresci. Evoluí. 
Evoluí para um ser complexo com capacidade para fazer relações e co-relações onde elas não existem, de gerar posturas de adaptação, de saber quando ser criança e quando ser idosa. 
Sinto poder e magia porque tomei consciência. 
Apercebi-me que sou uma versão optimizada de mim mesma, que sou muito diferente do que esperava ser mas 10 vezes melhor. Porque não sou perfeita. Porque me sinto confortável na minha imperfeição. 
"No strings". Todas as coisas que desejei ter não as tive. Mas tive melhor. 
Consegui mais porque olhei em volta e não apenas para onde me apontavam. 
Os outros cresceram, eu não. Recuso-me a crescer. 
Evoluí. 
E na evolução percebi a beleza da divergência.  

(T. aqui tens a minha opinião sobre crescer)





quarta-feira, 22 de abril de 2015

De soldado a estratega


O meu corpo decide avançar mais rápido que o cérebro.

8 horas e já estou de pé. Bolas, só precisava de acordar às 10.
Levanto-me revoltada e apercebo-me que estou esfomeada. Ligo a tv e as notícias contradizem-se na definição e não trazem nada de novo.
A casa parece saída de um filme e o sol hoje está radiante. 
Observo a minha calma madura. 
Rejubilo com a sagacidade adquirida e a frieza de não estar em estado de stress profundo. 
A verdade é que ganhei a capacidade de ver de cima, de olhar para a minha vida de fora. 
A perspectiva mudou e muda também o resultado. Passei de soldado a estratega e de exasperada a calma.
Larguei as roupas sujas, ensanguentadas e gastas, as botas grossas e ásperas, larguei a adrenalina da matança.
Envergo agora trajes solenes da cor das nuvens, o meu queixo levantou-se e nos pés envergo doces pantufas de algodão. Olho o mundo com calma de um ponto mais elevado que me permite ver mais longe. Já não é alta a voz mas o sorriso mantém-se. 
Chamam-me de louca e isso vai ser agora a minha maior vantagem.