domingo, 3 de março de 2013

Palco

Retiro-me de cena de mansinho. 
Os atores em palco a contracenar. O mundo a continuar a sorver a peça que nunca termina.
Espectadores na plateia. Personagens no palco. 
Subtilmente afasto-me para o limite da visão do público. Estaco no momento em que tenho que decidir sair ou continuar.
Um limbo. 
Não consigo escolher de que lado serei mais feliz. 

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Valsa

Uma sensação de demência profunda finca-se na pele e perco o sentido da relação espaço-tempo. 
O meu cérebro em sangue de esgotamento, a alma em cacos e irremediavelmente quebrada, o coração em cinzas já pisadas e amolecidas.  
O vício assola-me  numa monotonia estável e repetitiva. 
De algum modo sinto-me segura na prisão das notas que prevejo chegar.
De algum modo o chão que piso na minha cabeça enquanto deslizo encantada faz-me sentir genuína. 
Perdi-me em algum momento do tempo. Não sei onde fiquei, onde estou e para onde vou.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Risco

Dois olhares cruzam-se na casualidade de um café. Uma. Duas. Três vezes.
Uma decisão de não partir sem luta e sem risco. 
Hei-de encontrar uma forma de passar a bola para o teu lado.
Um papel largado no vento e confundido com cinza. Uma cara assustada. A loucura a passar-me em frente do olhar. 
Não saber o que aconteceu e apenas ter a certeza que foi arriscado. 
Um risco atrás de outro. 
Os dedos a deslizarem pelas teclas e pedaços soltos de informação a circularem... errado? Provavelmente.
Risco sem cálculo ou intenções que fosse e um cigarro no gelo da noite. 
E como se não chegasse a epifania das loucuras num copo com um pedaço de alcool a aquecer-me o corpo e um par de horas de conversa a alimentar-me a alma... unilateral, embora. Julgo que por vezes me esqueço de quanta informação posso soltar quando a intenção inicial se prende com triggers muito mais complexos.
Dei-te um pouco de algo esta noite. Tu, deste-me uma história.
 
 

sábado, 15 de dezembro de 2012

Shooting star

Uma estrela cadente rasgou o céu. 
Estou do outro lado do mundo e olho para cima numa cidade imensa.
A estrela passa e sinto o coração a acelerar enquanto nos lábios rebenta um sorriso.
Nas últimas horas ouvi muito e aprendi muito.
Nas últimas horas fui a força, a ambição, a esperança no futuro. 
Neste momento tenho um desejo a pedir... Penso e repenso e percebo que no coração me pulsa a garra de tudo conseguir. Sinto que desejos são apenas objetivos e se quiser muito chego lá.
Sinto-me em casa. Sinto-me na minha bolha.
Tudo aparenta ser perfeito e percebo agora que este foi o desejo que pedi e que se realizou: ter a oportunidade de aprender e trabalhar muito porque os desejos, esses, realizam-se sempre por consequência. 

* E como alguém me disse há muito, trago em mim uma shooting star. 

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Uma espécie de partida



Queria falar mas não quiseste ouvir.
Gosto de ti.
Adoro o teu sorriso enrolado na tua voz. O teu olhar doce e a capacidade de alternares entre o lobo e o carneiro conseguindo sempre ter contigo o melhor de dois mundos.  
A tua doçura faz-me perder a razão e nada é tão terno quanto a tua cabeça no meu peito a pedir mimo.
Extraio de ti uma felicidade estranha e deliciosa enquanto te sinto constantemente a criares em mim euforia.
Chorei numa tarde de domingo enroscada no teu colo, não por sofrer por outra pessoa, mas por ter tomado a consciência de que me apaixonei por ti. Retraí-me e entristeci nos últimos tempos ... tornei-me mágoa e máquina porque a tua conversa passou a ter um único tema. Bati com as portas porque a raiva de saber que não a esquecias toldou-me os sentidos. Teres-me tão cruelmente dito que não gostavas de mim enraiveceu-me.  
Gosto de ti. 
Tão certa quanto perdidamente, tu és quem me arrebatou o peito e me vergou a vontade de não querer ninguém para partilhar a minha vida.
Quero-te. Quero-te muito, pelo teu sorriso de anjo e pelo teu olhar de demónio, pela  inteligência e cultura muito pouco modestas e pelo coração tão impermeável quanto frágil. 
Vim para longe... 
Esta viajem não poderia ter um efeito mais útil: longe da vista ficarás também longe do coração. Tentarei deixar os sentimentos do outro lado do mundo numa Baía do Pacifico, só para ter a certeza que o mar não os trará de volta. 
Apaixonei-me por ti... e queria que soubesses o quanto te desejo. 
Mas preciso de esquecer-te pelo quanto te quero.



sábado, 1 de dezembro de 2012

Crueza

Cru. 
Não é crueldade, é a ausência dela. 
Deixo-me seguir. Deixo-me falar. Oiço-te. 
O corpo vai gelando e aquecendo intermitentemente consoante os goles de vinho. 
Com o frio os pensamentos tornam-se mais fortes e menos consequentes. 
A lucidez é mantida à conta do masoquismo.
Amo a cumplicidade e a confiança conseguidas na honestidade de palavras que saem sem premeditação.  
Adoro pessoas complexas. Não gosto de situações complexas.
É tão bom porque é tão simples. 
No games. No bullshit.  


quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Hospital de Almas

Há coisas na vida que são bonitas: ser um saco de pancada é uma delas.
Estar sempre disponível e ser atenciosa quando sou precisa. 
Ser material descartável quando não sou.
Um mundo ruiu à minha porta e apanhei todos os cacos. Uma, duas, três vezes.
Apanho os cacos de corações destruídos, de espíritos em sofrimento. Absorvo as dores e permito sempre que a minha existência seja um refúgio. Presentei-os com o sossego ou a alegria, uma boa refeição ou simplesmente um mimo. Sou a força, o suporte, a amizade, a loucura, o divertimento, o riso. 
Apanho os cacos que outros criaram. A mim ninguém me apanha.
Se calhar não tenho simplesmente alma e o meu coração está morto e não sei. 
Definitivamente acho que vou criar um hospital de almas. Ao menos assim recebo algo em troca.